Padre Alfredinho Kunz


Frédy Kunz, conhecido no Brasil como Padre Alfredinho, atravessou guerra, prisão, seca, fome e miséria para construir uma trajetória religiosa marcada pela convivência direta com trabalhadores, prostitutas, famintos, moradores de favelas e pessoas em situação de rua. Sua passagem pelo Ceará e pelo ABC Paulista deixou uma experiência de fé profundamente vinculada à dignidade humana e à defesa dos mais vulneráveis.

A história de Padre Alfredinho não pode ser compreendida apenas a partir dos altares. Para conhecer o sacerdote franco-suíço que dedicou décadas de sua vida aos pobres no Brasil, é preciso procurar também os barracos, as periferias, as estradas do sertão, a zona de prostituição, as casas que abriram suas portas aos famintos e, mais tarde, as ruas onde decidiu experimentar a vida daqueles que não tinham onde morar.

Nascido Frédy Kunz, em Berna, na Suíça, em fevereiro de 1920, Alfredinho viveu desde muito cedo a realidade do trabalho. Sua família mudou-se para a França em 1926 e, aos 11 anos, ele já trabalhava como cozinheiro em um hotel. Uma publicação da Conferência dos Religiosos do Brasil registra que chegou a enfrentar jornadas de até 15 horas. Em 1935, aproximou-se da Juventude Operária Católica (JOC), experiência que contribuiu para sua formação religiosa e social.

As fontes divergem sobre o dia exato de seu nascimento: há registros de 9 de fevereiro e outros de 12 de fevereiro de 1920. A divergência merece ser preservada em trabalhos históricos até que documentação primária permita estabelecer definitivamente a data.

Da Segunda Guerra Mundial ao sacerdócio

A juventude de Alfredinho foi atravessada pela Segunda Guerra Mundial. Ele integrou o Exército francês, foi capturado pelos alemães e permaneceu preso na Áustria. Relatos biográficos registram que trabalhou como cozinheiro durante o período de prisão e participou de atividades de leitura bíblica com outros prisioneiros.

Terminada a guerra, ingressou na formação religiosa dos Filhos da Caridade, congregação cuja atuação estava fortemente relacionada ao mundo operário e às periferias populares.

Foi ordenado sacerdote em 1954. Depois de uma passagem por Paris, seguiu para Montreal, no Canadá, onde trabalhou junto à Juventude Operária Católica e desenvolveu atividades voltadas às pessoas necessitadas.

Mas seria no Brasil que sua maneira radical de compreender a vida religiosa ganharia sua expressão mais conhecida.

A chegada a Crateús

Em 1968, Padre Alfredinho chegou ao Ceará para integrar a experiência pastoral da Diocese de Crateús, conduzida por Dom Antônio Batista Fragoso.

Era um momento de profundas transformações dentro da Igreja Católica latino-americana. O Concílio Vaticano II, as Comunidades Eclesiais de Base e posteriormente a Teologia da Libertação impulsionavam setores da Igreja a assumir uma presença mais intensa entre trabalhadores e populações submetidas à pobreza e à violência.

Dom Fragoso tornou-se uma das principais referências dessa experiência no Brasil. Alfredinho encontrou em Crateús um ambiente no qual sua própria compreensão do Evangelho poderia ser vivida radicalmente.

A parceria entre os dois deixaria marcas profundas na região. Décadas depois, a memória conjunta seria registrada inclusive no livro “Dom Fragoso e Padre Alfredinho – Entre nós”, publicado em 2020 por ocasião do centenário de ambos.

Antonieta e a decisão de morar entre os marginalizados

Um episódio ocorrido pouco depois de sua chegada ao Ceará tornou-se decisivo em sua trajetória.

Em 1968, Alfredinho foi chamado para atender Antonieta, uma jovem de aproximadamente 22 anos que vivia em uma zona de prostituição e estava gravemente doente de tuberculose.

Ele acompanhou seus últimos dias e ministrou os sacramentos.

Antonieta morreu pouco depois.

Segundo relatos preservados sobre aquele período, as condições de pobreza eram tamanhas que seu corpo teria sido levado ao cemitério utilizando a própria porta de sua casa como improvisação para o transporte.

A experiência abalou Alfredinho.

Depois da morte da jovem, tomou uma decisão que definiria sua pastoral: alugou o barraco onde Antonieta havia vivido e passou a morar no mesmo território das pessoas marginalizadas que pretendia acompanhar.

Não se tratava simplesmente de realizar ações assistenciais naquela comunidade. Alfredinho queria compartilhar seu cotidiano.

Anos depois, resumiria aquela experiência dizendo ter sido catequizado pelas próprias mulheres e pelos pobres de Crateús.

Tauá e o sertão

A atuação de Alfredinho não ficou restrita à cidade de Crateús.

Entre 1972 e 1975, foi pároco em Tauá, também no Ceará. Sua presença permaneceu tão significativa na memória local que ele posteriormente se tornou patrono de uma cadeira da Academia Tauaense de Letras.

Também atuou em comunidades rurais extremamente pobres. Registros sobre sua trajetória mencionam sua presença na região da Serra da Barra do Vento, onde teria construído uma pequena casa de taipa e convivido diretamente com moradores do sertão.

Essa proximidade com trabalhadores rurais e famílias atingidas pela seca seria fundamental para uma das iniciativas mais marcantes de sua vida.

O Servo Sofredor

O sofrimento humano tornou-se também o centro da reflexão espiritual de Alfredinho.

Em meados dos anos 1970, uma experiência pessoal de doença o levou a conversar com o biblista Carlos Mesters sobre o significado do sofrimento. Essa reflexão aproximou os dois dos chamados Cânticos do Servo de Javé, presentes no livro bíblico de Isaías.

Segundo registros sobre Alfredinho, aquela conversa contribuiu para a reflexão posteriormente apresentada por Mesters em “A Missão do Povo que Sofre”.

Para Alfredinho, o pobre não deveria ser visto apenas como alguém que precisava receber ajuda.

Era sujeito de sua própria história.

O sofrimento, quando transformado em organização, solidariedade e resistência, poderia também produzir consciência e libertação.

Dessa compreensão nasceu uma das experiências religiosas mais importantes vinculadas ao sacerdote.

Irmandade do Servo Sofredor

Em 1977, começou a tomar forma a Irmandade do Servo Sofredor, conhecida pela sigla ISSO.

Inspirada nos cânticos do Servo Sofredor de Isaías, a experiência reunia pequenos grupos formados principalmente por pessoas pobres e marcadas por diferentes formas de sofrimento.

A proposta era profundamente simbólica: quando a dignidade de uma pessoa é destruída, a própria humanidade é atingida.

A Irmandade transformou-se em uma rede de espiritualidade e solidariedade que ultrapassaria o Ceará e permaneceria ligada à memória de Alfredinho até depois de sua morte.

Quando a fome chegou às portas de Crateús

Entre o final dos anos 1970 e o começo dos anos 1980, uma severa seca atingiu o sertão.

Em 1981, famílias famintas começaram a chegar a Crateús procurando comida e trabalho.

O medo de saques provocou reações defensivas na cidade. Mas Alfredinho propôs uma resposta completamente diferente.

Nasceu a campanha Porta Aberta aos Famintos (PAF).

A ideia era simples: famílias que estivessem dispostas a receber uma pessoa com fome colocariam um cartão na porta de casa indicando que ali existia comida e acolhimento.

Fontes históricas divergem entre cerca de 2 mil casas participantes e a distribuição de 4 mil cartões, mas convergem sobre a grande dimensão alcançada pela mobilização.

O significado político e humano da iniciativa ultrapassava a distribuição de alimentos.

Dom Fragoso posteriormente descreveu uma transformação na maneira como a população enxergava aqueles trabalhadores rurais: pessoas inicialmente percebidas como possíveis invasores passaram a ser reconhecidas como irmãos atingidos pela fome.

Era a solidariedade transformando também a percepção social da pobreza.

A fé transformada em ação

A criatividade de Alfredinho produziu outras mobilizações.

Registros históricos mencionam campanhas contra hábitos de consumo, mutirões comunitários e a chamada “Lixbrás”, mobilização realizada no contexto da Campanha da Fraternidade de 1983 que teria reunido centenas e até mais de mil pessoas em ações de limpeza das periferias.

No mesmo período, Alfredinho teria trabalhado durante meses no chamado “bolsão da seca”, inclusive realizando atividades braçais ao lado dos trabalhadores.

Sua maneira de evangelizar tornava difícil separar espiritualidade, solidariedade e organização popular.

Um padre sob a ditadura

A experiência de Crateús ocorreu também durante os anos mais duros da ditadura militar brasileira.

A Diocese de Dom Fragoso estava inserida em uma Igreja que denunciava injustiças sociais, defendia trabalhadores e estimulava formas comunitárias de organização. Esse ambiente frequentemente despertava suspeitas dos órgãos repressivos.

A própria vida de Alfredinho — estrangeiro, sacerdote, vivendo entre os pobres e participando de experiências comunitárias — estava inserida nesse contexto.

Por isso, sua história também deve ser compreendida como parte da resistência desenvolvida por setores da Igreja Católica que, durante a ditadura, transformaram paróquias, dioceses e Comunidades Eclesiais de Base em espaços de defesa da dignidade humana.

De Crateús para Santo André

Depois de aproximadamente duas décadas no Ceará, Alfredinho iniciou outra etapa de sua trajetória.

Em 1988, mudou-se para Santo André, no ABC Paulista.

Novamente escolheu a periferia.

Passou a viver na favela Lamartine, entre as vilas Guaraciaba e Luzita. O Diário do Grande ABC registrou sua presença na comunidade e sua ligação com a capela de Nossa Senhora Aparecida.

Mas Alfredinho ainda iria mais longe em sua opção de convivência com os excluídos.

Entre 1995 e 1997, viveu períodos junto à população em situação de rua, chegando a dormir sobre papelão.

Aos mais de 70 anos, o sacerdote que havia conhecido a prisão durante a guerra, o sertão e a fome decidiu experimentar também a realidade daqueles que dormiam nas ruas de uma das maiores regiões metropolitanas do país.

Um padre que influenciou gerações

A influência de Alfredinho alcançou religiosos, militantes sociais, integrantes das Comunidades Eclesiais de Base e pessoas que posteriormente assumiriam importantes responsabilidades públicas.

Um dos casos conhecidos é o de Gilberto Carvalho, que se tornaria chefe de gabinete da Presidência da República e ministro. Reportagem da revista piauí registrou a forte influência exercida por Alfredinho sobre Carvalho e relatou que uma fotografia do sacerdote permanecia em seu gabinete no Palácio do Planalto.

Mas talvez seu legado mais importante esteja distante dos gabinetes.

Está nas pessoas que conviveram com ele.

Nas comunidades.

Nos trabalhadores rurais.

Nas mulheres marginalizadas.

Nos moradores das periferias.

Nos homens e mulheres que passaram pelas ruas.

Livros e memória

A experiência de Alfredinho também foi registrada em livros.

Entre os títulos relacionados à sua trajetória está “A Burrinha de Balaão numa Favela Brasileira”, tradução de uma obra originalmente publicada em francês e escrita por Joseph Bouchaud e Frédy Kunz. O livro relata experiências de Alfredinho junto a populações marginalizadas e exerceu influência sobre militantes e religiosos brasileiros.

Sua memória também está associada a outras publicações e estudos sobre a Igreja popular, Dom Fragoso, as Comunidades Eclesiais de Base e a espiritualidade do Servo Sofredor.

A morte de Alfredinho

Padre Alfredinho morreu em 12 de agosto de 2000, em Santo André, aos 80 anos. A data é confirmada por diferentes registros, apesar de algumas fontes secundárias apresentarem ocasionalmente o ano de 2001.

Sua morte, entretanto, não encerrou sua presença em Crateús.

Mais de duas décadas depois, uma cerimônia transformaria seu retorno ao Ceará em um acontecimento carregado de simbolismo.

O retorno a Crateús

Em fevereiro de 2023, os restos mortais de Padre Alfredinho foram recebidos pela Diocese de Crateús.

A programação reuniu orações, testemunhos e uma procissão entre a Igreja de Santa Terezinha e a Igreja de São Francisco, onde foi celebrada uma missa.

Participaram sacerdotes, comunidades e caravanas de diferentes municípios. Somente de Tauá, segundo registro da época, partiram cerca de 90 pessoas.

Décadas depois de sua passagem pelo sertão, o povo que Alfredinho escolhera como companheiro de vida o recebia novamente.

Há ainda uma demonstração institucional da permanência de sua memória: documentos oficiais do Incra continuam identificando em Crateús um Projeto de Assentamento Padre Alfredinho.

O legado de um padre que decidiu permanecer junto aos excluídos

A vida de Padre Alfredinho atravessa alguns dos acontecimentos mais dramáticos do século XX.

Ele conheceu pessoalmente a pobreza e o trabalho precoce.

Conheceu a guerra.

Conheceu a prisão.

Tornou-se sacerdote.

Deixou a Europa.

Viveu entre trabalhadores.

Foi para o sertão brasileiro.

Morou numa zona de prostituição.

Conviveu com famílias atingidas pela seca.

Ajudou a organizar casas para alimentar famintos.

Participou da construção de uma espiritualidade nascida do sofrimento dos pobres.

Viveu numa favela.

E, já idoso, aproximou-se ainda mais das pessoas que dormiam nas ruas.

Por isso, reduzir Alfredinho à imagem de um sacerdote dedicado à caridade seria insuficiente.

Sua trajetória questionava a própria relação entre quem ajuda e quem é ajudado. Em vez de colocar o pobre apenas como destinatário da ação religiosa, Alfredinho procurou reconhecê-lo como sujeito, mestre e protagonista.

Essa talvez seja a chave para compreender a radicalidade de sua experiência.

Padre Alfredinho não ficou conhecido por construir uma grande estrutura.

Construiu presença.

E deixou como herança uma ideia tão simples quanto exigente: diante da fome, abrir a porta; diante da exclusão, aproximar-se; diante do sofrimento, reconhecer a dignidade humana.

Mais de um século depois de seu nascimento e mais de duas décadas após sua morte, a memória de Frédy Kunz permanece como uma referência para quem acredita que fé, solidariedade e defesa dos direitos humanos não podem caminhar separadas.

Siga, compartilhe e participe:

Instagram: https://www.instagram.com/teologiadalibertacao/
Facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=61571509464663
Threads: https://www.threads.com/@teologiadalibertacao
TikTok: https://www.tiktok.com/@teologia_da_libertacao?lang=pt_BR
YouTube: https://www.youtube.com/@Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o

Siga, compartilhe e ajude a fortalecer uma fé comprometida com a justiça, a dignidade humana e a transformação social.

Autor: João Oscar

Comentários