Dom Helder Câmara o “Dom da Paz”

No dia 27 de agosto de 1999, morria no Recife, aos 90 anos, Dom Helder Pessoa Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife e uma das figuras mais importantes da Igreja Católica brasileira no século XX. Conhecido como “Dom da Paz”, marcou sua trajetória pela defesa dos direitos humanos, pela denúncia das desigualdades sociais, pela opção por uma Igreja pobre e servidora e pela resistência à ditadura militar brasileira.

Dom Helder teve participação ativa no Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, e foi um dos propositores e signatários do Pacto das Catacumbas, compromisso assumido inicialmente por cerca de 40 bispos nas Catacumbas de Domitila, em Roma. O documento defendia uma Igreja despojada de privilégios e comprometida diretamente com os pobres. Posteriormente, centenas de padres conciliares aderiram ao pacto.

Sua atuação e suas ideias também ajudaram a preparar o ambiente eclesial latino-americano que, nos anos seguintes, daria força à Teologia da Libertação. Por isso, é mais preciso dizer que Dom Helder foi uma de suas grandes referências e inspirações do que simplesmente classificá-lo como “adepto” dessa corrente desde o início.

Do Rio de Janeiro às periferias

Dom Helder foi bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro entre 1952 e 1964. Durante esse período, desenvolveu forte atuação social junto às populações pobres e às favelas cariocas.

Em 1956, criou a Cruzada São Sebastião, iniciativa voltada à melhoria das condições de moradia de famílias residentes em favelas. Também fundou, em 1959, o Banco da Providência, voltado ao enfrentamento da pobreza e da exclusão social.

As diferenças de visão pastoral e de modelo de Igreja entre Dom Helder e o então cardeal-arcebispo do Rio, Dom Jaime de Barros Câmara, contribuíram para tornar difícil sua permanência na arquidiocese. Em 1964, Dom Helder foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife, missão que exerceu até 1985.

Resistência à ditadura militar

Sua chegada a Pernambuco coincidiu com o início da ditadura militar brasileira.

Dom Helder tornou-se uma das principais vozes da Igreja contra a pobreza, a repressão, as prisões arbitrárias e as violações de direitos humanos. Sua atuação fez com que fosse chamado por adversários de “arcebispo vermelho” e acusado de comunismo.

A perseguição não ficou apenas no campo das palavras. Sua residência chegou a ser metralhada, pessoas próximas foram perseguidas e presas, e o padre Antônio Henrique Pereira Neto, assessor de Dom Helder, foi sequestrado, torturado e assassinado em 1969.

Em 1970, o regime militar chegou a impor uma espécie de censura ao seu nome, impedindo veículos brasileiros de comunicação de mencioná-lo. Ao mesmo tempo, Dom Helder ganhou projeção internacional e passou a realizar viagens pelo exterior, onde denunciava a tortura e as violações praticadas no Brasil.

É desse período uma das frases mais associadas à sua memória:

“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que são pobres, me chamam de comunista.”

A frase sintetiza a dimensão de sua atuação: não apenas prestar assistência, mas questionar as estruturas que produziam pobreza, desigualdade e exclusão.

Um dos fundadores da CNBB

Dom Helder também teve papel fundamental na criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Ele foi um dos idealizadores da instituição e seu primeiro secretário-geral, contribuindo para transformar a CNBB em importante espaço de articulação da Igreja Católica brasileira. A Conferência foi oficialmente criada em 1952.

Sua atuação ultrapassou as fronteiras brasileiras. Dom Helder também participou das articulações que levaram à criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), fortalecendo a cooperação entre os episcopados da América Latina.

Nobel da Paz e a pressão da ditadura

Dom Helder foi indicado diversas vezes ao Prêmio Nobel da Paz.

Os arquivos oficiais do Nobel confirmam candidaturas em diferentes anos, inclusive em 1970, 1971, 1973 e 1974, com mais de uma indicação em alguns desses anos. As justificativas destacavam sua defesa dos pobres e oprimidos, dos direitos humanos, da justiça social e da ação não violenta.

Por isso, a frase de que ele foi “indicado quatro vezes” aparece com frequência, mas tecnicamente é mais seguro afirmar que foi candidato em pelo menos quatro anos e recebeu múltiplas indicações.

Documentação e registros históricos também apontam que, quando seu nome ganhou força para o Nobel em 1970, o governo do general Emílio Garrastazu Médici realizou uma campanha internacional para enfraquecer sua candidatura. A CNBB registra explicitamente essa movimentação do regime.

Dom Helder nunca recebeu o Nobel, mas acumulou vários reconhecimentos internacionais, entre eles o Prêmio Martin Luther King, em 1970, e o Prêmio Popular da Paz, na Noruega, em 1974.

Processo de beatificação e canonização

Décadas depois de sua morte, a trajetória de Dom Helder passou a ser analisada oficialmente pela Igreja Católica para uma possível beatificação.

Em 2014, o então arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, encaminhou à Santa Sé o pedido para abertura da causa. A Congregação para as Causas dos Santos recebeu o requerimento e, em abril de 2015, a Arquidiocese recebeu o Nihil Obstat, ou seja, a confirmação de que não havia impedimento para a abertura do processo.

A fase diocesana foi oficialmente aberta em 3 de maio de 2015, quando foi constituído o tribunal responsável por recolher documentos, analisar textos e ouvir testemunhas sobre sua vida e suas virtudes. Desde então, Dom Helder possui o título de Servo de Deus.

Há uma atualização importante: o processo já ultrapassou a etapa diocesana. Em 2025, a CNBB informou que a Santa Sé havia validado juridicamente o material enviado a Roma e que o processo avançaria para a elaboração da Positio, documento que será analisado por historiadores, teólogos, bispos e cardeais.

Celebrado também pelos anglicanos

A memória de Dom Helder ultrapassou as fronteiras da Igreja Católica.

A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) inclui Dom Helder em seu calendário litúrgico no dia 27 de agosto, classificando-o como “Bispo e Testemunha Profética”. O calendário eclesiástico anglicano oficial para 2026 confirma essa celebração.

Portanto, em vez de escrever simplesmente que “na Igreja Anglicana Dom Helder já é santo”, eu usaria uma formulação mais precisa:

“Na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Dom Helder é celebrado liturgicamente em 27 de agosto como Bispo e Testemunha Profética.”

Isso evita aplicar automaticamente a terminologia católica de “canonização” ao calendário anglicano.

Um legado que continua atual

Mais de duas décadas depois de sua morte, Dom Helder permanece como referência para movimentos sociais, comunidades religiosas e defensores dos direitos humanos.

Sua trajetória reuniu espiritualidade, não violência, justiça social e defesa da democracia. Ao colocar os pobres no centro de sua atuação pastoral, ajudou a construir uma visão de Igreja comprometida não apenas com a assistência aos necessitados, mas também com o enfrentamento das estruturas responsáveis pela desigualdade.

O “Dom da Paz” morreu em Recife em 27 de agosto de 1999, mas sua memória continua presente na Igreja, nas lutas pelos direitos humanos e na defesa de uma sociedade mais justa, solidária e democrática.

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Autor: João Oscar

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