Dom José Maria Pires o "Dom Zumbi"


Arcebispo da Paraíba por quase três décadas, Dom José Maria Pires fez da defesa dos pobres, dos negros, dos trabalhadores rurais e dos perseguidos pela ditadura uma dimensão inseparável de sua atuação pastoral

No dia 27 de agosto de 2017, morria, aos 98 anos, Dom José Maria Pires, carinhosamente chamado de Dom Pelé e Dom Zumbi, uma das figuras mais importantes da Igreja Católica brasileira na luta contra o racismo e na defesa dos direitos humanos. Primeiro bispo negro do episcopado brasileiro, sua trajetória reuniu fé, consciência racial, compromisso com os pobres e enfrentamento às injustiças sociais. Quando morreu, era o bispo mais idoso do Brasil.

Nascido em 15 de março de 1919, em Córregos, Minas Gerais, José Maria Pires construiu sua caminhada religiosa em uma Igreja na qual o racismo também se manifestava. Ele próprio relataria posteriormente os preconceitos sofridos durante sua formação no seminário. Essas experiências contribuíram para que, ao longo da vida, se tornasse uma das principais referências da Igreja brasileira na defesa da população negra.

Em 1957, tornou-se bispo de Araçuaí, em Minas Gerais. Era então o único bispo negro do Brasil. Participou das quatro sessões do Concílio Vaticano II, entre 1962 e 1965, experiência que influenciaria profundamente sua compreensão de uma Igreja mais próxima do povo e comprometida com a realidade social.

Em 1966, foi nomeado arcebispo da Paraíba, missão que exerceu até 1995. Foram quase três décadas nas quais a Arquidiocese se aproximou das lutas populares, dos trabalhadores rurais, das comunidades negras e daqueles que sofriam perseguição política.

Dom Zumbi e a luta contra o racismo

Dom José Maria Pires transformou a questão racial em parte de sua própria missão dentro da Igreja.

O apelido “Dom Zumbi”, pelo qual ficaria conhecido no movimento negro e nos setores progressistas da Igreja, expressava justamente essa identificação. Segundo relato recuperado pelo Instituto Humanitas Unisinos, o nome teria sido dado a ele por Dom Pedro Casaldáliga, enquanto “Dom Pelé” teria surgido a partir de Dom José Vicente Távora.

Dom José participou da articulação dos bispos negros brasileiros e teve atuação importante na construção da Pastoral Afro-Brasileira, defendendo que a cultura, a identidade e as formas de expressão da população negra fossem reconhecidas também no interior da Igreja.

Para ele, reconhecer as diferenças culturais não significava estabelecer hierarquias entre as pessoas. Em entrevista posteriormente recuperada pela CNBB, Dom José defendia que as diferenças étnicas e culturais precisavam ser respeitadas tanto na dimensão religiosa quanto na vida social.

A histórica Missa dos Quilombos

Um dos momentos mais emblemáticos dessa caminhada aconteceu em 22 de novembro de 1981, com a histórica Missa dos Quilombos, celebrada diante da Igreja do Carmo, no Recife.

Idealizada por Dom Helder Câmara e Dom Pedro Casaldáliga, com texto de Casaldáliga e Pedro Tierra e músicas de Milton Nascimento, a celebração foi presidida por Dom José Maria Pires. Tornou-se um marco da presença e da afirmação da população negra dentro da Igreja Católica brasileira.

A celebração confrontava uma questão histórica profunda: a relação da própria Igreja e da sociedade brasileira com a escravidão, o racismo e a herança africana.

A experiência dessas mobilizações, celebrações e articulações ajudaria a fortalecer a organização que posteriormente se consolidaria como Pastoral Afro-Brasileira.

Uma Igreja ao lado dos perseguidos

A atuação de Dom José Maria Pires não se limitou à questão racial.

Durante a ditadura militar, tornou-se uma voz de defesa dos perseguidos políticos e de denúncia das violações de direitos humanos.

Há registros inclusive de que, em 1969, visitou Frei Betto quando o religioso estava preso no Presídio Tiradentes, em São Paulo. A visita provocou registros dos órgãos de informação da própria ditadura.

Sua Arquidiocese também acolheu pessoas perseguidas pelo regime.

Em 1975, Dom José criou o Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese da Paraíba (CDDH). A instituição atuava junto aos pobres, trabalhadores rurais, excluídos socialmente e perseguidos políticos e tornou-se uma referência na defesa de direitos no estado.

O Centro contou inclusive com a atuação de antigos presos políticos. A Comissão Municipal da Verdade de João Pessoa registrou a presença de nomes como Wanderley Caixe e Eleonora Menicucci, acolhidos naquele ambiente de atuação social da Igreja paraibana.

Dom José também fortaleceu as pastorais sociais, as Comunidades Eclesiais de Base e as lutas no campo, aproximando a Igreja das reivindicações por terra, justiça social e dignidade.

Era uma prática religiosa profundamente relacionada àquilo que se consolidaria na América Latina como Teologia da Libertação. Pesquisa acadêmica da UFPB aponta que a criação do Centro de Defesa dos Direitos Humanos, por exemplo, fortalecia essa perspectiva ao colocar a Igreja ao lado dos camponeses, excluídos e perseguidos pela ditadura.

“Dom José Maria vai às causas, vai às raízes”

Sua postura foi reconhecida também por outro símbolo da Igreja comprometida com os direitos humanos: Dom Helder Câmara.

No prefácio do livro Do Centro para as Margens, publicado em 1987, Dom Helder escreveu sobre ele:

“Dom José Maria vai às causas, vai às raízes… E fala claro, sem perder a serenidade, mas chamando as coisas pelos nomes.”

Dom Helder via nele justamente a expressão de um cristianismo que não poderia permanecer distante da realidade social.

A mesma concepção aparece em uma carta pastoral escrita por Dom José em 1976, na qual advertia:

“Quando se cansar a paciência do pobre que está sendo esmagado pelos poderosos, a de Deus também se cansará.”

Para ele, a fé cristã exigia posicionamento diante da pobreza, do racismo e das estruturas responsáveis pela exclusão.

O legado de Dom Zumbi

Dom José Maria Pires deixou a Arquidiocese da Paraíba em 1995, ao atingir a idade prevista para a renúncia episcopal, mas não abandonou sua atuação em defesa da igualdade racial e da justiça social.

Morreu em 27 de agosto de 2017, em Belo Horizonte, em decorrência de complicações de uma pneumonia. Tinha 98 anos, 70 anos de sacerdócio e 60 de episcopado. Seu corpo foi levado para João Pessoa e sepultado na Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves.

A coincidência da data também carrega um simbolismo especial: Dom Helder Câmara havia morrido em 27 de agosto de 1999. Anos depois, a própria CNBB passou a recordar conjuntamente, nessa data, a memória de Dom Helder, Dom José Maria Pires e Dom Luciano Mendes de Almeida, três bispos associados à defesa dos direitos humanos e dos mais pobres.

O legado de Dom Zumbi permanece vivo. A Comissão Brasileira Justiça e Paz da CNBB criou inclusive o Observatório Racial Dom José Maria Pires, dedicado ao enfrentamento ao racismo, à promoção da igualdade racial e às ações afirmativas.

Mais do que o primeiro bispo negro do episcopado brasileiro, Dom José Maria Pires tornou-se símbolo de uma Igreja que decidiu caminhar ao lado daqueles historicamente colocados às margens.

Dom Pelé. Dom Zumbi. Bispo, pastor, defensor dos direitos humanos e uma das grandes referências da luta antirracista dentro da Igreja brasileira.

Siga, compartilhe e participe:

Instagram: https://www.instagram.com/teologiadalibertacao/
Facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=61571509464663
Threads: https://www.threads.com/@teologiadalibertacao
TikTok: https://www.tiktok.com/@teologia_da_libertacao?lang=pt_BR
YouTube: https://www.youtube.com/@Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o

Siga, compartilhe e ajude a fortalecer uma fé comprometida com a justiça, a dignidade humana e a transformação social.

Autor: João Oscar

Comentários