Jesuíta, ex-presidente da CNBB e arcebispo de Mariana por 18 anos, Dom Luciano deixou como marca uma Igreja próxima dos mais pobres e uma pergunta que sintetizava sua vida: “Em que posso ajudar?”
No dia 27 de agosto de 2006, aos 75 anos, morria em São Paulo Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, jesuíta, arcebispo de Mariana e uma das figuras mais influentes da Igreja Católica brasileira nas últimas décadas do século XX.
Dom Luciano faleceu após um período de internação no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, onde tratava um câncer no fígado. Sua morte ocorreu em decorrência de falência múltipla dos órgãos.
Mais do que os cargos que ocupou, sua memória ficou associada sobretudo à proximidade com os pobres, à defesa dos direitos humanos, à capacidade de diálogo e à disponibilidade permanente para servir.
Uma frase tornou-se quase uma síntese de sua personalidade:
“Em que posso ajudar?”
Décadas depois, a própria CNBB continua utilizando essa expressão como referência ao modo de viver e de servir de Dom Luciano.
Do Rio de Janeiro à Companhia de Jesus
Luciano Pedro Mendes de Almeida nasceu no Rio de Janeiro, em 5 de outubro de 1930.
Ainda jovem ingressou na Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada por Santo Inácio de Loyola.
Estudou Filosofia em Nova Friburgo e Teologia em Roma. Posteriormente, concluiu doutorado em Filosofia, em 1965.
Foi ordenado sacerdote em Roma e, anos depois, tornou-se bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo. Sua ordenação episcopal ocorreu em 2 de maio de 1976, pelas mãos do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.
Essa experiência em São Paulo o aproximou ainda mais das periferias, dos pobres, dos doentes, das crianças em situação de vulnerabilidade e das pessoas privadas de liberdade.
Liderança na CNBB
Dom Luciano teve papel central na história da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Foi secretário-geral da entidade durante o período de abertura política e do enfraquecimento da ditadura militar, quando a Igreja Católica brasileira desempenhava papel importante na defesa da democracia e dos direitos humanos.
Depois, tornou-se presidente da CNBB por dois mandatos consecutivos.
A CNBB registra, em publicações recentes, que ele exerceu:
Secretário-geral: 1979 a 1986
Presidente: 1987 a 1994.
Sua liderança aconteceu justamente em um dos períodos mais delicados da história recente do Brasil: a transição da ditadura para a democracia, a promulgação da Constituição de 1988 e a reorganização dos movimentos sociais.
Ao recordar sua passagem pela instituição, a Presidência da CNBB destacou características como dinamismo, inteligência privilegiada, dedicação incansável e profundo amor à Igreja.
Direitos humanos e opção pelos pobres
Apesar de sua formação acadêmica e de ocupar importantes posições eclesiásticas, Dom Luciano ficou conhecido especialmente pela atenção aos mais vulneráveis.
Sua atuação estava ligada à defesa dos direitos humanos, dos pobres, das crianças, dos enfermos, das pessoas em situação de rua e dos excluídos.
Há relatos de que, mesmo depois de dias inteiros de reuniões e atividades episcopais, saía discretamente para visitar pessoas doentes e em situação de abandono. Ao iniciar o processo de beatificação, responsáveis pela causa lembraram justamente que muitos desses gestos não apareciam nos documentos oficiais porque eram realizados longe das câmeras e sem publicidade.
Para Dom Luciano, a fé deveria se traduzir em serviço concreto.
Essa atitude explica por que a pergunta:
“Em que posso ajudar?”
acabou se transformando em uma das expressões mais associadas ao seu nome.
Arcebispo de Mariana
Em 1988, Dom Luciano foi nomeado arcebispo metropolitano de Mariana, em Minas Gerais.
Permaneceu à frente da Arquidiocese até sua morte, em 2006 — 18 anos de episcopado em Mariana.
Durante esse período, deu forte impulso à organização pastoral da arquidiocese.
Entre as principais iniciativas estiveram a organização do território em cinco Regiões Pastorais, a realização de assembleias, o fortalecimento dos conselhos arquidiocesanos, a formação permanente do clero e a valorização da participação dos leigos.
Também acompanhou de perto o Seminário Arquidiocesano, as pastorais sociais e diferentes iniciativas de formação e assistência.
Outro aspecto importante foi a preservação das igrejas e do patrimônio histórico e religioso de Mariana, uma das cidades mais antigas e importantes da história do catolicismo brasileiro.
Uma atuação que ultrapassou o Brasil
Dom Luciano também teve forte atuação na Igreja latino-americana e internacional.
Foi membro da Pontifícia Comissão Justiça e Paz, entre 1992 e 2006, e exerceu a função de primeiro vice-presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), entre 1995 e 1998.
Sua presença nesses organismos ampliou sua atuação em temas relacionados à justiça social, paz, dignidade humana e realidade dos povos latino-americanos.
A espiritualidade do serviço
Uma característica frequentemente apontada por pessoas que conviveram com Dom Luciano era sua capacidade de combinar uma formação intelectual extraordinária com grande simplicidade pessoal.
Dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu, recordou sua inteligência, memória e capacidade de raciocínio, mas destacou que sua sabedoria vinha principalmente de uma profunda experiência de Deus.
Essa espiritualidade se manifestava na relação com cada pessoa.
Em uma entrevista recuperada pela CNBB, Dom Luciano dizia ser necessário:
“descobrir, em cada pessoa, aquele aspecto de santidade que reflete o rosto e a presença de Cristo”.
Era uma forma de olhar que colocava a dignidade humana no centro de sua atuação pastoral.
Processo de beatificação e canonização
Depois de sua morte, aumentou entre fiéis e pessoas que conviveram com Dom Luciano a chamada fama de santidade.
Em 2014, o então arcebispo de Mariana, Dom Geraldo Lyrio Rocha, iniciou os procedimentos para abertura de sua causa de beatificação e canonização.
A Congregação para as Causas dos Santos informou em maio daquele ano que, por parte da Santa Sé, não havia impedimento para o início da causa.
Em 27 de agosto de 2014, exatamente oito anos depois de sua morte, uma celebração na Catedral de Mariana marcou oficialmente a instalação do tribunal responsável pela investigação diocesana.
A investigação reuniu dezenas de testemunhos, documentos e escritos de Dom Luciano. Mais de 50 sessões foram realizadas e mais de 60 testemunhas foram ouvidas.
Com a abertura da causa, passou a receber o título de:
Servo de Deus Dom Luciano Mendes de Almeida.
Como está o processo atualmente
Há uma atualização importante em relação ao texto original.
O processo não está mais apenas começando.
A fase arquidiocesana já foi concluída e a causa continua em andamento. Em 2024, a Arquidiocese de Mariana nomeou o padre Darci Fernandes Leão especificamente para acompanhar a causa de beatificação e canonização de Dom Luciano.
Documentos e publicações oficiais da Arquidiocese em 2025 e 2026 continuam apresentando Dom Luciano como Servo de Deus, o que indica que ele ainda não foi declarado Venerável nem Beato.
Em 2026, no marco dos 20 anos de sua morte e 50 anos de sua ordenação episcopal, a Arquidiocese programou inclusive uma atividade específica para apresentar informações sobre sua espiritualidade e sobre o andamento do processo de beatificação.
Portanto, hoje a formulação correta é:
A causa de beatificação e canonização de Dom Luciano está em andamento, e ele possui oficialmente o título de Servo de Deus.
27 de agosto: três grandes nomes da Igreja brasileira
A data de sua morte possui um simbolismo particular.
Dom Luciano morreu em 27 de agosto de 2006.
Dom Helder Câmara havia morrido exatamente sete anos antes, em 27 de agosto de 1999.
E, em 27 de agosto de 2017, morreria também Dom José Maria Pires, o Dom Zumbi.
Por isso, a CNBB passou a recordar os três conjuntamente como bispos que marcaram a Igreja brasileira pela opção pelos pobres, pela defesa dos direitos humanos e pelo compromisso com uma sociedade mais justa.
Um legado que permanece
Vinte anos depois de sua morte, Dom Luciano Mendes de Almeida continua presente na memória da Igreja brasileira.
Seu nome está ligado a instituições, centros de formação, iniciativas sociais, escolas e espaços da própria CNBB. Em Brasília, por exemplo, a Casa de Encontros da Conferência leva seu nome.
Mas talvez seu legado seja resumido de maneira mais simples por aquela pergunta que repetia constantemente:
“Em que posso ajudar?”
Para Dom Luciano, servir não era apenas uma função episcopal.
Era uma maneira de compreender o cristianismo.
E é exatamente essa combinação de fé, inteligência, serviço, defesa da dignidade humana e atenção aos mais pobres que continua fazendo de sua memória uma referência para a Igreja e para a sociedade brasileira.
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Autor: João Oscar

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