Frei Domingos dos Santos, o Frei Mingas, fez de sua música uma expressão da espiritualidade das Comunidades Eclesiais de Base, da luta pela terra e da defesa dos pobres; seis anos após sua morte, sua obra continua presente em celebrações e movimentos populares
“Nova consciência há que se criar.” O verso de Frei Domingos dos Santos, conhecido em comunidades de todo o país como Frei Mingas, ajuda a compreender uma trajetória em que música, fé e compromisso social nunca estiveram separados. Frade dominicano, poeta, compositor e agente pastoral, Mingas deixou uma obra profundamente vinculada às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), à leitura popular da Bíblia, à liturgia inculturada e às lutas por terra, justiça e dignidade.
Nascido em 4 de agosto de 1940, em Salto Grande, no interior de São Paulo, Frei Mingas percorreu diferentes regiões do Brasil como religioso da Ordem dos Pregadores. Viveu em comunidades dominicanas de Curitiba, São Paulo, Juiz de Fora, Porto Nacional, Goiânia e Cidade de Goiás. Nesta última, permaneceu por aproximadamente 35 anos, construindo uma relação profunda com as comunidades e movimentos populares.
Morreu em 22 de agosto de 2020, em Goiânia, aos 80 anos, após enfrentar um câncer no pâncreas. A Revista de Liturgia, ao registrar sua morte, definiu-o como “místico, poeta, músico e compositor” e destacou sua simplicidade, espiritualidade e compromisso com justiça, paz, fraternidade e solidariedade.
Seis anos depois, sua memória permanece especialmente viva porque muitas de suas músicas continuam sendo cantadas — às vezes até por pessoas que desconhecem quem as compôs.
Da zona rural paulista às comunidades populares
A origem de Mingas estava no interior rural de São Paulo. Décadas depois, essa relação com a terra, os trabalhadores e as comunidades rurais apareceria repetidamente tanto em sua atuação pastoral quanto em suas composições.
Sua caminhada religiosa coincidiu com um período de profundas transformações na Igreja Católica latino-americana. O Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, e posteriormente as conferências episcopais latino-americanas impulsionaram experiências eclesiais mais próximas da realidade social dos pobres.
Foi nesse ambiente que se desenvolveram as CEBs e ganhou força a Teologia da Libertação.
Uma pesquisa acadêmica da Universidade Federal de Goiás que entrevistou pessoalmente Frei Mingas em 2016 registra sua ligação direta com essa história. O trabalho identifica Domingos dos Santos entre os religiosos vinculados à Teologia da Libertação que atuaram no município de Goiás e registra que ele participou de cursos com Leonardo Boff.
Mas essa aproximação não permaneceu apenas no campo teológico.
Transformou-se em prática.
Dom Tomás Balduíno e a Igreja comprometida com os pobres
Uma figura decisiva nessa caminhada foi Dom Tomás Balduíno, bispo dominicano que se tornou uma das principais referências brasileiras na defesa dos povos indígenas, camponeses e trabalhadores sem terra.
Segundo o depoimento de Frei Mingas recuperado pela pesquisa da UFG, quando Dom Tomás chegou a Goiás, ele se entusiasmou com o projeto social defendido pelo bispo.
A Diocese de Goiás se tornaria um território importante dessa experiência de Igreja comprometida com as organizações populares.
Outra pesquisa sobre a região destaca a presença de Frei Mingas ao lado de Dom Tomás e de outros religiosos no processo de organização dos trabalhadores e na luta pela terra. O mesmo estudo lembra a forte participação da Diocese nos assentamentos e registra a importância que tiveram as pastorais e agentes ligados aos trabalhadores rurais.
Para Mingas, portanto, a fé não poderia ficar indiferente às estruturas sociais que produziam pobreza e exclusão.
CEBs, CPT e a luta pela terra
Antes de retornar a Goiás, Frei Mingas trabalhou em Minas Gerais junto às Comunidades Eclesiais de Base.
Depois seguiu para o atual Tocantins, onde permaneceu aproximadamente dois anos atuando na Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Porto Nacional. Nesse período, trabalhou com Frei Henri des Roziers, dominicano e advogado conhecido nacionalmente pela defesa dos trabalhadores rurais, e com Padre Josimo Tavares, assassinado em 1986 em razão de sua atuação pastoral junto aos camponeses.
Em 1987, Mingas retornou a Goiás.
Era um período marcado pelo fortalecimento dos movimentos de luta contra os latifúndios improdutivos. Frei Mingas não ficou apenas acompanhando essa mobilização de longe: participou de acampamentos e das discussões jurídicas relacionadas à conquista da terra.
Ao recordar aquela experiência, deixou uma frase que sintetiza sua compreensão da missão religiosa:
“Não é possível separar a questão política da sociedade.”
Não se tratava simplesmente de transformar a Igreja em organização política. A compreensão era outra: se a vida das pessoas era atravessada pela fome, pela ausência de terra, pela exploração e pela desigualdade, essas realidades também deveriam fazer parte da reflexão cristã.
A Bíblia lida a partir da vida
Outro elemento fundamental da trajetória de Frei Mingas foi a leitura popular da Bíblia.
A Revista de Liturgia registra que ele se dedicava à formação e às celebrações junto às comunidades, mantendo especial entusiasmo pela leitura popular das Escrituras e pela liturgia inculturada.
Essa forma de interpretar a Bíblia marcou profundamente as CEBs brasileiras.
A experiência cotidiana das comunidades passava a dialogar com os textos bíblicos: o Êxodo podia ser compreendido a partir da experiência de um povo buscando libertação; os profetas dialogavam com as denúncias das injustiças contemporâneas; e a presença de Jesus entre pobres e marginalizados ganhava uma dimensão concreta diante das desigualdades brasileiras.
Frei Mingas transformaria justamente essa leitura em música.
A música como forma de oração e resistência
É provavelmente como compositor que seu nome alcançou o maior número de pessoas.
As canções de Frei Mingas atravessaram paróquias, CEBs, encontros, pastorais e movimentos populares. Algumas foram incorporadas aos cancioneiros das comunidades e continuaram sendo reproduzidas muito depois de sua composição.
Entre as obras associadas a Mingas estão “Confidências”, “Canto Nativo”, “Canto da Nova Terra”, “Somos Povo de Gente”, “Com Maria”, “Migrante/Peregrino”, “Lamento Nativo”, “Rosto de Domingos” e diferentes musicalizações de salmos.
Sua obra consegue reunir duas dimensões que poderiam parecer distintas.
De um lado, oração, contemplação, Bíblia e espiritualidade.
Do outro, terra, desigualdade, migração, trabalhadores, resistência e libertação.
Para Mingas, porém, essas dimensões pertenciam à mesma experiência cristã.
“Peregrino”: um retrato do Brasil desigual
Talvez nenhuma composição represente isso tão claramente quanto “Migrante”, também conhecida como “Peregrino”.
A canção começa apresentando alguém caminhando pelas estradas de um mundo marcado pela desigualdade e expulso de seu lugar pelo poder econômico e pelo latifúndio. A resposta ao abandono não aparece como resignação: aparece na esperança, na organização coletiva e na possibilidade de libertação.
O texto relaciona diretamente o clamor dos oprimidos, a presença de Jesus entre os pobres, a denúncia dos profetas e a exigência da partilha.
Décadas depois, a composição continua sendo utilizada pelas próprias CEBs para refletir sobre a realidade brasileira. Em 2025, um texto dedicado ao Jubileu e às Comunidades Eclesiais de Base retomou Peregrino como referência para pensar uma Igreja comprometida com a defesa da vida e com os pobres.
A permanência da música ajuda a explicar o alcance de Frei Mingas.
Ele não escreveu simplesmente sobre os pobres.
Procurou fazer com que a experiência dos pobres pudesse ser cantada dentro da própria Igreja.
“Lamento Nativo” e a pergunta sobre cidadania
Outra composição significativa é “Lamento Nativo”.
A música aparece no cancioneiro do 14º Encontro Intereclesial das CEBs, creditada a Frei Domingos dos Santos, OP. Nela, a experiência do brasileiro tratado como estrangeiro em sua própria terra desemboca numa pergunta sobre direito e cidadania.
O próprio fato de suas músicas integrarem cancioneiros de encontros nacionais das CEBs demonstra que a obra de Mingas ultrapassou as comunidades onde viveu.
Passou a integrar uma memória coletiva da Igreja popular brasileira.
“500 anos”: memória, colonização e resistência
A dimensão política de sua poesia aparece também em “500 anos”, composição registrada em pesquisa acadêmica sobre tradições e identidade cultural.
No texto, Mingas revisita criticamente a colonização das Américas, o extermínio dos povos indígenas, a escravização dos negros e a utilização da religião a serviço do poder colonial.
É nessa composição que aparece uma de suas formulações mais conhecidas:
“Nova consciência há que se criar.”
A proposta não é apagar o passado.
É justamente “acordar a memória” e “refazer a história” como caminhos para a libertação, relacionando memória histórica e resistência dos povos.
Décadas depois, essa frase daria nome a uma homenagem nacional dedicada à sua obra.
O Ofício Divino das Comunidades
Existe ainda uma contribuição de Frei Mingas que ultrapassa suas composições individuais.
Ele participou da equipe responsável pela elaboração do Ofício Divino das Comunidades, experiência litúrgica que se tornou importante para CEBs, pastorais e comunidades religiosas brasileiras.
Segundo a homenagem publicada pela Revista de Liturgia, Mingas gostava especialmente de rezar e cantar o Ofício.
Essa participação ajuda a compreender sua concepção de música.
Para ele, o canto não era um elemento decorativo colocado dentro da celebração.
Era uma maneira de o povo rezar sua própria realidade.
Uma obra que atravessou fronteiras
As composições de Frei Mingas não permaneceram restritas ao Brasil.
A Revista de Liturgia registra que suas músicas eram cantadas por comunidades do campo e da cidade espalhadas pelo país e também chegaram a outros lugares da América Latina.
Há um detalhe particularmente simbólico dos últimos dias de sua vida.
Em 4 de agosto de 2020, quando completou 80 anos e já estava em tratamento contra o câncer, Mingas assinou uma autorização para que “Migrante” fosse traduzida para o alemão.
Pouco mais de duas semanas depois, morreria.
Direitos humanos também fizeram parte dessa caminhada
A presença de Frei Mingas alcançou ainda iniciativas diretamente relacionadas aos direitos humanos.
Um portfólio institucional da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil registra, entre suas ações culturais, a produção do CD “Muitas Graças e Louvores”, composto por músicas de Frei Domingos dos Santos. O documento situa essa produção dentro de uma trajetória institucional que também envolveu formação em ética, cidadania e direitos humanos e iniciativas de solidariedade internacional.
Essa relação não surpreende.
A defesa da dignidade humana que aparece nas atividades pastorais de Mingas é a mesma que atravessa suas músicas sobre trabalhadores, migrantes, camponeses e povos historicamente submetidos à violência.
A despedida em 2020
Nos últimos meses de vida, Frei Mingas enfrentou um câncer no pâncreas.
Passou a alternar o tratamento entre o hospital e o Convento dos Dominicanos em Goiânia. Depois de tantos anos na Cidade de Goiás, havia se deslocado para a capital justamente por causa dos cuidados de saúde.
Na madrugada de 22 de agosto de 2020, Frei Domingos dos Santos morreu em Goiânia.
Tinha acabado de completar 80 anos.
A homenagem publicada naquele ano descreveu sua partida como discreta e silenciosa, coerente com a simplicidade que teria marcado sua vida.
Mas sua música permaneceu.
“Nova consciência há que se criar”
Em maio de 2021, meses depois de sua morte, artistas, religiosos e integrantes de movimentos e comunidades se reuniram para celebrar seu legado no sarau “Nova consciência há que se criar”.
A iniciativa reuniu nomes de diferentes regiões do Brasil e contou também com participação de Frei Carlos Mesters, uma das principais referências da leitura popular da Bíblia no país. Entre os participantes anunciados estavam Zé Vicente, Graça Figueiredo, Daniel Carvalho e diversos outros músicos, religiosos e agentes comunitários.
A apresentação do evento definiu as músicas de Frei Mingas como fonte de espiritualidade, mística e resistência para grupos, movimentos e comunidades populares.
Era uma descrição particularmente adequada de seu legado.
Um canto que permanece
Seis anos após sua morte, Frei Mingas permanece como um daqueles personagens cuja obra se tornou maior que o reconhecimento público de seu próprio nome.
Suas canções continuam circulando. Seus versos aparecem em encontros das CEBs, celebrações, pesquisas acadêmicas e reflexões sobre a Igreja popular. Peregrino continua sendo cantada; Lamento Nativo permanece nos cancioneiros; e a convocação para criar uma “nova consciência” atravessou o tempo.
Sua trajetória também ajuda a preservar a memória de uma experiência decisiva da Igreja brasileira: a de religiosos e leigos que entenderam que celebrar a fé e enfrentar as injustiças não eram tarefas incompatíveis.
Frei Mingas esteve nas CEBs. Passou pela Comissão Pastoral da Terra. Conviveu com personagens como Dom Tomás Balduíno, Frei Henri des Roziers e Padre Josimo. Participou das mobilizações pela terra. Estudou a Teologia da Libertação. Trabalhou com a leitura popular da Bíblia. Participou da construção do Ofício Divino das Comunidades. E transformou grande parte dessa experiência em música.
Talvez por isso seja difícil separar sua biografia de suas canções.
Frei Mingas cantou aquilo que escolheu viver: uma espiritualidade construída no chão das comunidades, ao lado de quem lutava por terra, justiça, dignidade e libertação.
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Autor: João Oscar
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